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ana santos silva

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mithya
2018

afinal, o que é o tempo?

parece fácil e intuitiva a resposta, mas no momento da formulação da mesma deparamo-nos com uma verdadeira dificuldade e hesitamos. em criança, confrontava os meus pais com a seguinte questão: hoje já é amanhã? parece que já na altura, na minha incrível lucidez de criança, me apercebia da ilusão que é a separação entre passado, presente e futuro.

 

numa análise mais profunda, verificamos que o passado só existe na nossa memória e que o ontem só existiu como hoje. o futuro é só uma projeção das nossas expectativas e dos nossos desejos e só existirá verdadeiramente amanhã. mas, o futuro existirá amanhã como hoje e não como amanhã, e, o ontem existiu como hoje e não como ontem. o presente, por sua vez, corresponde àquele intervalo temporal que não pode mais ser dividido, sendo que flutua continuamente do futuro para o passado, terminando por não ter duração.

 

o tempo, como passado, presente e futuro, é uma ilusão: as lembranças de momentos passados, bem como as expectativas de algo futuro, são elaborações dependentes da memória presente. segundo os Vedas (tratados onde assenta a tradição Védica), tudo aquilo que, para existir, toma essa mesma existência emprestada a uma outra coisa é mithya. mithya é tudo o que tem uma duração, um princípio, um meio e um fim.

 

fotografado com uma câmara de médio formato analógica, o projeto consiste em três imagens que representam desde o estado de ignorância, de ilusão, ao estado de equanimidade da mente, percorrendo um estado meditativo que permite a abolição do próprio tempo, deixando espaço para um entendimento do ‘Eu’ através do desapego do corpo físico, mental e emocional.

 

mithya é um projeto fotográfico que pretende demonstrar imageticamente esta reflexão sobre uma temporalidade atemporal, ligando a entropia do mundo com a efemeridade da vida e explorando a ilusão da separação entre passado, presente e futuro. através de longas exposições de 45 minutos cada, procurei uma representação de um tempo espesso, ou de um somatório de tempos que vai além do instante infinitamente fugaz, contrariando, assim, algo que é eternamente associado ao meio fotográfico: o instantâneo.